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O medo de decidir errado em segurança e o custo não contabilizado de adiar

Poucas decisões de segurança são rejeitadas de forma explícita. A maioria é simplesmente adiada. Às vezes, por receio de decidir errado. Porque decidir envolve assumir impacto orçamentário, operacional, às vezes político. E em ambientes complexos, assumir impacto exige convicção que nem sempre está disponível no momento da decisão.

O problema é que adiar também é uma decisão. E quase nunca é tratada como tal.

Por que adiar parece mais seguro

Adiar dá tempo para analisar melhor, esperar orçamento, alinhar áreas, observar o que o mercado está fazendo. Na prática, vira uma forma de reduzir tensão no curto prazo. É mais confortável dizer “vamos avaliar melhor” do que “vamos implementar isso agora sabendo que vai gerar resistência operacional”.

Só que o risco não entra em pausa junto com a decisão. Enquanto ela fica parada, exposições continuam abertas, exceções provisórias viram padrão, soluções temporárias se consolidam. O ambiente muda, o risco se acumula e, quando a decisão finalmente precisa ser tomada, já não há mais tempo para avaliar com calma. Você decide sob pressão, com menos informação e mais consequência.

Aqui está o primeiro insight que passa despercebido: adiar não mantém o status quo. Muda o contexto em que a decisão vai ser tomada, quase sempre para pior.

O custo não contabilizado do adiamento

Quando se fala em custo de segurança, normalmente se olha para investimento: ferramenta, serviço, projeto. O custo do adiamento raramente entra na conta porque ele não vem com nota fiscal.

Ele aparece de outras formas. Mais horas de contenção manual porque automação não foi implementada. Mais dependência de controles frágeis porque arquitetura não foi ajustada. Mais dificuldade de explicar escolhas quando algo dá errado, porque você vai precisar justificar por que sabia do risco e não agiu.

E tem um componente que poucos admitem: quanto mais tempo uma decisão fica adiada, mais difícil fica tomá-la. Porque o ambiente ao redor se adapta à situação atual. Times criam workarounds, processos se ajustam, expectativas se formam. Quando você finalmente decide mudar, não está mais lidando apenas com a decisão técnica original. Está lidando com resistência organizacional acumulada.

Segundo insight: o custo do adiamento cresce de forma não linear. Os primeiros meses são baratos. Depois de um ano, você não está mais implementando uma solução, está desfazendo dependências e quebrando hábitos consolidados.

Quando adiar vira cultura

Em algumas organizações, decisões adiadas deixam de ser exceção e viram cultura. O time aprende que é mais seguro não decidir do que decidir errado. CISOs aprendem que propor mudança gera atrito político, então preferem esperar o momento certo (que raramente chega).

Esse padrão cria um ambiente onde segurança parece sempre “em evolução”, mas nunca alcança estabilidade real. Há sempre um projeto em análise, sempre uma solução sendo avaliada, sempre uma decisão dependendo de alinhamento. E enquanto isso, o ambiente operacional continua exposto aos mesmos riscos que motivaram a discussão original.

O problema não é falta de consciência do risco. É falta de clareza sobre quem assume a responsabilidade pela decisão e quem vai lidar com a consequência caso dê errado. Em ambientes corporativos, essa indefinição paralisa mais do que qualquer limitação técnica ou orçamentária.

Terceiro insight: decisões adiadas raramente são retomadas por iniciativa interna. Elas voltam à mesa quando um incidente força a conversa ou quando pressão externa (auditoria, regulação, cliente) exige resposta.

O medo de decidir errado em segurança

Há uma assimetria de consequência que todo CISO conhece: se você implementa uma medida de segurança e nada acontece, ninguém vai te parabenizar por ter evitado um incidente que não ocorreu. Mas se você implementa algo que causa impacto operacional, todo mundo vai lembrar.

Essa assimetria cria incentivo perverso: é menos arriscado politicamente deixar uma vulnerabilidade aberta do que implementar controle que pode gerar reclamação operacional. Porque vulnerabilidade não explorada é invisível. Controle que atrapalha operação é visível todos os dias.

E quando decisão envolve escolha entre segurança e disponibilidade (que é frequente em ambientes críticos), a pressão para não decidir aumenta. Porque qualquer escolha vai desagradar alguém. Manter o status quo desagrada menos gente no curto prazo, mesmo que aumente risco no longo prazo.

Quarto insight: em muitas organizações, o maior obstáculo para decisões de segurança não é orçamento ou tecnologia. É falta de cobertura política para assumir impacto operacional, mesmo quando esse impacto é necessário.

Decidir é definir qual risco você aceita

Nenhuma decisão de segurança elimina risco completamente. Ela apenas define qual risco a organização aceita assumir de forma consciente. Implementar controle rigoroso de acesso pode aumentar atrito operacional. Manter acesso permissivo pode aumentar exposição a ameaças internas. As duas opções têm risco, apenas de naturezas diferentes.

O problema do adiamento indefinido é que ele não reduz exposição. Apenas transfere a decisão para um momento menos controlado, onde você vai ter menos tempo, menos informação e mais pressão. E aí a escolha deixa de ser estratégica e passa a ser reativa.

Organizações maduras em segurança não são aquelas que nunca erram. São aquelas que conseguem tomar decisões conscientes sobre risco, documentar o raciocínio por trás da escolha e ajustar rapidamente quando o contexto muda. Isso exige clareza sobre trade-offs, comunicação transparente com stakeholders e capacidade de assumir consequência.

Apoio para decisões difíceis

Na Redbelt Security, entendemos que apoiar a tomada de decisão é tão importante quanto executar tecnicamente. Segurança madura começa quando o dilema é colocado na mesa com clareza: qual é o impacto de cada opção, qual é o custo de não decidir, quem precisa estar envolvido na escolha.

Trabalhamos com CISOs que precisam tomar decisões em ambientes onde não existe resposta perfeita, apenas escolhas com consequências diferentes. Porque no final, o risco mais caro é o que cresce enquanto a decisão fica parada.

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